Fabrício Augusto de Oliveira*
Uma nova rodada de aperto monetário aconteceu no mundo econômico na última semana. Nos Estados Unidos, o Banco Central (o FED) elevou os juros do país, pela primeira vez desde 2023, em 0,25 ponto percentual (pp.), para a faixa de 3,75% a 4%. Na União Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) aumentou-os também em 0,25 pp., passando-os para 2,5%, dando prosseguimento à política de sua elevação nos últimos três meses. E, até o Japão, também subiu essa taxa para 1,25%, o maior nível em três décadas.
Por trás deste movimento, encontram-se as pressões inflacionárias provocadas pelas incertezas da economia mundial, pelos impactos das guerras dos Estados Unidos-Israel contra o Irã e da Rússia contra a Ucrânia e, como consequência, a elevação dos preços das commodities no mercado internacional, notadamente do petróleo que atingiu US$ 110 o barril.
Nos Estados Unidos, a inflação até recuou de 4,2%, em maio, para 3,4% em julho, mas se encontra bem acima da meta estabelecida de 2%. Na União Europeia, ela vem se mantendo resistente no patamar acima de 3% desde o mês de abril, também acima da meta. E, no Japão, apesar da inflação de 1,7% de agosto de 2026 ainda se manter abaixo da meta de 2%, o país está procurando evitar que isso ocorra, diante da desvalorização de sua moeda (o iene), dos custos mais elevados da eletricidade, do gás e do petróleo, como consequência dos conflitos globais.
Na contramão deste movimento, o Banco Central no Brasil, reduziu, no dia 17 de setembro, a taxa de juros (a Selic) de 14% para 13,75%, mas sem nenhuma garantia de que essa política terá continuidade. Esse pequeno alívio da política monetária pode levar certos analistas a acreditar que, finalmente, o Banco Central tenha acordado da letargia em que se encontrava e voltado a implementar uma política mais realista de acordo com as condições da economia brasileira. Não é bem assim.
A verdade é que, apesar das incertezas presentes no cenário internacional, as condições internas no Brasil têm melhorado significativamente, pelo menos no que diz respeito à inflação e ao comportamento do PIB.
Em relação à inflação, essa vem perdendo força, tendo registrado, em julho, um aumento pouco significativo de 0,07%, e conhecido, em agosto, uma deflação de 0,32%. Como resultado, enquanto a inflação, no ano de 2026, caiu para 3,11%, próxima da meta de 3%, a acumulada em 12 meses, está em 4,22%, dentro da meta do intervalo previsto.
Tal situação se explica principalmente pelo comportamento do PIB, que ingressou num processo de desaceleração. Com projeções anteriores de crescimento de mais de 2%, atualmente as previsões são bem inferiores: algumas mais pessimistas indicam não se poder esperar mais que uma expansão de 1,5% no ano, enquanto o mercado projeta um aumento de 1,88%, de acordo com o Boletim Focus de 21 de setembro.
Mas, o mais importante é que, enquanto aqueles países e o bloco europeu inicialmente mencionados (Estados Unidos, Japão e União Europeia), mantêm uma taxa de juros real muito baixa (Estados Unidos) ou mesmo negativa (caso do Japão e da União Europeia), no Brasil essa registra um nível altamente proibitivo tanto para o consumo como para o investimento, estando, atualmente, em 9,89%. São condições muito diferentes para a atividade econômica, revelando a pouca importância dada pelo Banco Central à mesma.
É bem verdade que o risco fiscal continua assombrando os investidores, mas se o Banco Central permanecer com essa política restritiva e mantiver a economia numa trajetória rumo à recessão, com certeza essa tendência tenderá a se agravar ainda mais, não somente pelo aumento dos encargos da dívida, mas também pela queda da arrecadação.
*Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e do Grupo de Estudos de Conjuntura do Departamento de Economia da UFES, articulista do Debates em Rede, e autor, entre outros, do livro “A revolução marginalista neoclássica: o agente racional na história do pensamento econômico” publicado, em 2026, pela Editora Contracorrente
Não há comentários postados até o momento. Seja o primeiro!