Ester Abreu Vieira de Oliveira*
A cidade de Vitória, capital do ES, está localizada numa ilha e a Grande Vitória compreende a ilha e uma grande parte do continente do seu lado Norte, Sul e Oeste. No Leste se encontra o oceano Atlântico.
Vim de Muqui, Sul do Estado, para a capital, em 1955, para estudar, e deparei-me com novos conhecimentos, novos amigos, novas pessoas, e um ambiente mais movimentado por carros, ônibus, bondes, e pude ver a beleza marinha, ouvir com frequência o ruído do mar, sentir a brisa que dele vinha, e banhar-me em suas águas ora quebradas em minha perna, ora ondulantes a elevar-me ou bater-me antes de quebrar num ir e vir na praia, mas sentia falta da natureza verdejante das plantações de café e milho, dos pastos verdes, rodeados de capoeiras ou pequenas florestas nos picos das montanhas, que rodeiam minha cidade, e de poder caminhar sentindo o aroma de suáveis vegetações.
Primeiro, num processo de ajustamento, procurar sem procurar adaptar-me à nova vida, mas, depois, e já casada, é que fui encontrar um recanto natural na ilha de Vitória, num desses cerros vitorienses onde tinha poço com água natural, jacupembas, pombos, canarinhos, plantação de banana, cana, milho, feijão, cajus, abacate, jaca e podia-se ver o céu sem ter uma parede de concreto obstruindo a visão total. Nesse recanto ecológico, hoje, desaparecido por habitações que provocou o desaparecimento do poço e das plantações, vivi contacto com a natureza. A moradia é um direito fundamental do homem, mas não pode sobrepor ao direito à vida e não podem ser edificadas moradias sem um mínimo de proteção higiênicas, num ritmo criminoso abalando o eco-sistema levando os habitantes a sofrerem desastres em tempos chuvosos. Porém, o fenômeno habitacional desapropriador do natural foi pouco a pouco corroendo esse meu ambiente paradisíaco e outros dessa ilha. Mas dele me recordo, quando de longe o vejo tão modificadamente irreconhecível ao divisá-lo desde a avenida.
Hoje vivo no Bairro de Lourdes que, nesse meio século, sofreu modificações ambientais provocadas pela extensão da cidade que levou o ambiente à melhoria pela drenagem do local, pelas mudanças de comportamento e conscientização política e coletiva em busca de sustentabilidade, transformando, ruas alagadas em alamedas floridas e um grande pasto e terreno pedregoso em um bosque. Assim, em vez dos bois pastando, ou pelas ruas esburacadas passarem, como vistos por mim nos passados sessenta anos, permanecem árvores e, já com mais de meio século, a balançarem seus ramos, pássaros cantando e macaquinhos saltando de galho em galho e guinchando.
A plantação de árvores no Bairro de Lourdes obedeceu ao critério de escolher mudas próprias da Mata Atlântica, o que proporcionou do Bairro de Lourdes um local mais natural, melhor para as moradias, portanto mais de acordo com a origem da palavra “eco” do grego Oikos, que significa casa, e “logia”, do grego Logos”, que significa estudo.
Nessa agregação das duas palavras gregas teremos uma ciência que é o “estudo da casa”, onde interagem nela o ambiente e suas inter-relações com os organismos físicos, fenômeno ocorrido em Vitória com uma proporção crescente de gotas saídas de um conta gotas urbano. Assim, se a ecologia é uma ciência fundamental para a compreensão da vida que nos envolve e ampara o nosso planeta (nossa casa), temos nesse pequeno bairro vitoriense um exemplo de esforços dos cidadãos e de políticos. Sem dúvida há, também em Vitória, outros bairros como o de nas imediações da pedra conhecida como Dois Olhos, em Fradinhos, o crescimento de um reflorestamento.
Hoje de minha casa vejo um redondel de verde nas colinas de Consolação, Floresta e Gurigica, bairros fronteiriços com o de Lourdes, e um amontoado de casas, mas do bairro de Lourdes, da pequena floresta nascida a partir de uma política municipal saudável, recebo suaves ventos, e, olhando o redondel verde, minha imaginação percebe imagens de árvores como aves, dragão, caravelas, leques, e o frescor da brisa elimina o uso de ventiladores e ar condicionados. A beleza que a vegetação do entorno proporciona faz-me refletir sobre a importância da preservação ambiental e das políticas que proporcionam preservá-lo para evitar impactos no meio ambiente como resvalamentos de terras e poluição do ar.
Logo, o pequeno reflorestamento de um bairro vitoriense com plantas nativas, proporcionou uma transformação ecológica e não obedeceu aos reflorestamentos com eucalipto frequentes no interior do Estado, mas trouxe uma melhoria ambiental e uma espécie de lugar paradisíaco para uma sonhadora como eu.
Professora Emérita da Ufes, Presidente de Honra da AEL,
Escritora, pertencente a instituições culturais como IHGES, AFEL, ALB, ACLAPTCTC, ACL, ABH
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