Erlon José Paschoal*
Márcia Barbieri é uma escritora paulista, com vários livros publicados, entre eles “A Puta”, que junto com as obras “O Enterro do Lobo Branco” e “A Casa das Aranhas” forma o que ela define como uma trilogia sobre o corpo, todos publicados pela Editora Reformatório de São Paulo.
O livro “A Puta”, como pode sugerir o título, não descreve um amontado de cenas pornográficas e excitantes, mas pretende lançar à tona o avesso das relações eróticas, escancarando os prazeres carnais, sobretudo, o feminino levado às suas últimas consequências, numa sociedade decadente. Desde épocas longínquas, a puta é uma figura ambígua, rejeitada e temida, desejada e atacada, uma espécie de transgressora das normas vigentes que se atreve a sentir prazer sexual e assumi-lo publicamente e, ao mesmo tempo, uma pessoa moralmente fraca, irrecuperável e explorada pelos homens, o contrário da mulher honrada e pura propagada pelo cristianismo. Nas palavras da personagem: “Cansada do sucesso, me esbaldava na desgraça.”
Trata-se aqui de problematizar e subverter os padrões pequeno-burgueses de comportamento, colocando o leitor frente ao inusitado e ao assombroso, e ao que os seres humanos podem ser capazes de imaginar e de realizar.
O romance é narrado pela protagonista, que ao final sabemos que se chama Anúncia, num fluxo ininterrupto de consciência com um discurso bem elaborado, por vezes quase delirante, que mistura lembranças com experiências e alucinações diversas, intercalado por intervenções diretas de outros personagens, sem perder o ritmo incessante da narrativa e com fortes pinceladas de surrealismo e de descrições escatológicas e, ao mesmo tempo, realistas. Em certo momento, a narradora afirma: “Não sei dizer o que era pior, a realidade ou as alucinações.”
A personagem central é uma fêmea bonita e feia, jovem e velha, agressiva e doce, lúcida e insana, tudo ao mesmo tempo, uma mulher com muita consciência de si, de sua história e do mundo em que vive, repleto de contradições e próximo de seu fim. O cenário é uma terra arrasada, destruída por uma guerra que eliminou a maioria da população, incluindo as Artes, a Educação, as Ciências e todas as ditas conquistas da civilização, voltando a ser um agrupamento de coletores e caçadores.
Uma realidade distópica onde todos devoram a todos com o único propósito de sobreviver. Um lugarejo povoado por corpos putrefatos, doentes, dilacerados, convivendo com insetos repulsivos e detritos de todo tipo. Mas corpos vivos e ainda sedentos de prazer e de sexo. “Não nego prazer nem a um mendigo”, diz a narradora.
E a Anúncia sobrevive vendendo seu corpo, dando prazeres a todos que possam pagar, e usufruindo amplamente de todas as possibilidades de gozo e de deleites, com sua vagina, seus seios e sua boca. São as delícias do sexo mescladas com as banalidades e os horrores da vida.
Prazer e asco caminhando juntos em um rio lodoso que carrega restos e imundícies, em meio a pessoas perdidas escarafunchando o esgoto e entregues aos escárnios de um gozo passageiro, até mesmo em um banheiro imundo tomado de insetos pegajosos e de fezes fedorentas. E numa perspectiva crítica de si mesma a protagonista relativiza seus prazeres e ressalta que “A mulher sobrevive até hoje por causa do fingimento, se não fosse isso já teríamos sido exterminadas.”
Um momento que subverte um dos mitos mais sagrados do feminino no mundo burguês – a maternidade com seu amor incondicional e seu altruísmo – irrompe na cena em que a narradora vai a uma parteira fazer um aborto de algo insuportável crescendo dentro de seu útero, um incômodo que a martiriza. Atravessando uma sala, com um porco pendurado sangrando por um corte na barriga e ainda gritando, ela se deita em uma maca afastando uma placenta ali esquecida. E mesmo tendo um cano enfiado em sua vagina para sugar o feto durante semanas, ele se nega a sair, o “nojentinho”, como ela diz, acaba nascendo, um ser estranho, mole e gelatinoso, que ela despreza e renega sem quaisquer remorsos.
Entre as perdas dos valores civilizatórios presentes naquele mundo carcomido pela miséria e pela inexistência do amor tradicional, “pois o casamento tinha morrido com a guerra”, há momentos em que a protagonista pratica o canibalismo e afirma simplesmente: “Não imaginei que um dia eu provaria um ser da minha espécie, pior que isso, eu não imaginei que eu gostaria tanto.“ Ou quando senta no pinto ereto de um defunto e goza abundantemente: são cenas que implodem toda moral hipócrita pequeno-burguesa. Afinal, a vagina nesse contexto é quase um mundo, das entradas e das saídas, e dos prazeres infindáveis. Para ela e para todos que a desfrutam.
Ao final, alguém coloca em sua porta um feto natimorto, que ela guarda em um pote, onde ele surpreendentemente vive e cresce. Após algum tempo, ele rompe a borda do pote e nasce sem que se saiba se é um macho ou uma fêmea. O médico arranca então uma costela de um cachorro sarnento ali presente, faz um enxerto, e aquele ser faz-se mulher, Ana, linda e raivosa. E nesse momento ocorre uma epifania, uma revelação: a narradora olha-se em um espelho esférico e percebe que ela era afinal o homem “animal-monstro-branco” que a engravidou, que a penetrou sem piedade.
E conclui: “Depois de todas as encarnações o homem virá como mulher. Eu digo que o homem será transformado na vagina de uma puta. O homem será só um oco no meio das pernas de uma puta. E então, ele se livrará de seus pecados e gozará na mandíbula do monstro.” O leitor que interprete tal anúncio como quiser.
Enfim, é um romance de 140 páginas escritas em um fôlego único e envolvente que exige do leitor atenção, respeito e muita empatia, pois como afirma a protagonista: “a vida seria insuportável se não pudesse ser narrada.” Não deixe de ler.
*Escritor, dramaturgo, diretor de teatro e tradutor.
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