Maria Dalva Marchezi Rosario*
Ao manusear esse novo e quinto livro do professor Carlos Laet de Oliveira (2026), sem imprimir um olhar atento e curioso sobre o conteúdo de cada capítulo, alguém pode imaginar que, lá dentro, vai encontrar o tédio de um manual portador de um amontoado de normas que se limitam a repetir o que prescrevem algumas gramáticas e manuais de cunho normativo. Ledo engano. O professor Carlos Laet apresenta, em cada tópico dessa obra, um tratamento aprofundado do assunto, marcado pela inovação e por sábios e sagazes questionamentos.
O espírito de alguns filólogos e gramáticos devem sofrer certa inquietação (inveja, não, que inveja é coisa feia para um espírito evoluído), ao verem, lá de cima, que Carlos Laet conseguiu, nos seus estudos,” escarafunchar o que de todo não está elucidado” (p.24). E alguns talvez digam: “Mas como é que eu não pensei nisso antes?”.
E, se alguém pensa que, nos seus achados, Carlos Laet está “inventando moda”, é só observar as mais de 900 citações de autores brasileiros e portugueses de que ele se utiliza para comprovação dos estudos apresentados. Isso sem incluir os autores de doutrina: gramáticos, filólogos e linguistas. Confesso que não me dei o trabalho de contar. São informações colhidas pessoalmente do próprio autor da obra.
Há assuntos em que a maioria das nossas gramáticas passam ao largo, limitando-se, umas e outras, à repetição das mesmas lições em diferentes edições. Carlos Laet vai fundo nas suas pesquisas, apresentando, nesta obra, novas ideias e novas categorias sintáticas e morfológicas.
Entre essas ideias inovadoras, é apresentada, no capítulo “Do emprego dos reflexivos de terceira pessoa” (p. 24), a noção de expressão de posse “de imanência, de inerência, de essência intrínseca”, distinta da posse “exclusiva ou concreta”. É o que explicaria o emprego ora da expressão reflexiva de valor possessivo “de si”, ora da expressão possessiva “dele (p.28).
Outras inovações que se apresentam na obra é a inclusão de cinco novas espécies de predicativo (p.121), além das que estão instituídas nas nossas gramáticas, e a inclusão de nova oração subordinada substantiva: a oração vocativa (p.170). Importante também é o tratamento, pouco, ou quase nunca, abordado nas gramáticas, dos “Modalizadores”, que se podem confundir com advérbios (p.60).
O estudo surpreende ainda com o que é apresentado no capítulo “Da persistência do pronome ele como complemento” (p.125), contrariando os que afirmam que foge do padrão culto da língua o uso desse pronome como objeto direto.
Entre os achados intrigantes dos estudos está o que se refere ao uso do pronome relativo cujo (p.39), que tem a função de adjunto adnominal, mas que, contrariando “os rígidos padrões impostos pela análise sintática”, é amplamente empregado como complemento nominal (p.42), como mostra o exemplário de quase oito páginas.
Outra discussão relevante trazida como tratamento inovador por essa obra é a do capítulo “A vírgula entre sujeito e predicado” (p.185), estratégia discursiva usada para marcar, na escrita, a “topicalização”, representando aí uma pausa de valorização expressiva. Apesar de a gramática considerar o uso da vírgula para destacar o tópico como um desvio da norma, o autor julga “razoável” esse emprego.
Além desses assuntos, trata o livro de muitos outros, todos de grande valia para professores, estudantes e demais usuários que se interessam pelo estudo da língua portuguesa.
São muitos os caminhos apontados na obra como orientações aos usuários da língua, assim como são muitos os desvios ou descaminhos, e a todos o usuário deve estar atento. Ao indicar os caminhos, Carlos Laet, longe de adotar uma postura normativista, mostra, por meio de inúmeros exemplos, que, para muitos usuários, alguns dos desvios não aceitos pelos padrões gramaticais são construções mais apetecíveis, mais eufônicas do que a própria construção considerada correta, porém “reputada por alguns como pouco digerível” (p.49). A esse respeito, cito aqui, para concluir, trechos do poema “Agramática”, de Manoel de Barros, em que o Padre Ezequiel ensina:
“_Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável [...]. /Veja que bugre só pega por desvios, / não anda em estradas. /Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros. /Há que apenas saber errar bem o seu idioma.” (BARROS,Manoel, O Livro das Ignorãnças, 1993).
*Professora de Língua Portuguesa do Departamento de Línguas e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (Aposentada).
REFERÊNCIA
OLIVEIRA, Carlos Laet de. Nos caminhos e descaminhos em Matéria Gramatical. 1. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2026.